Que lhe importavam lágrimas? Chorasse Desde o nascer do sol até o sol posto;Tivesse prantos quando a lua nasce,Quando, entre nuvens, ela esconde o rosto.
Junto ao seu Berço, a contemplar-lhe a Face,De Mãe Divina no sublime posto,Temendo que uma estrela O despertasse,Gozo teria no maior desgosto.
Por Ele toda a mágoa sofreria...Ah! corresse-lhe em fonte ardente o pranto Na paz da noite e nos clarões do dia.
Sofrer por Ele... Sim. Tudo por Esse A quem beijava os Olhos, mas contanto Que Ele, o seu Filho amado, não sofresse!
Pudesse ela poupar-lhe o sofrimento,Adivinhar-lhe as dores e os pesares,Ter poeiras de astros para o mal sedento,Ter bons olhares para os maus olhares...
De repente, num rútilo momento,Na Alma surgiu-lhe uma visão de altares:Era a grandeza do seu Nascimento No Lar eleito em meio de outros lares...
Mas que fizera para tanta glória,Sentir a Deus chamá-la Mãe querida,Ela, mulher, como as demais corpórea?
E a aparição daquele Arcanjo etéreo,Que lhe anunciara a nova prometida,Engrinaldou-lhe a fronte de mistério...
Nossa-Senhora encontra-O... Se não fora O eterno sopro que do Céu lhe vinha,Diante dessa visão contristadora,Certo caíra a pálida Rainha.
É Ele, o seu Filho amado: a luz que doura O seu cabelo, é sangue: linha a linha,É sangue o rosto: e a barba, que entre loura E negra está, clarões de sangue tinha.
Verga-lhe as Pernas o Madeiro: os braços A sua Mãe estende-lhe, chorando,Ante a incerteza dos seus pobres Passos.
Sob irrisórios aparatos régios,Tudo se apronta para o mais nefando,Para o mais infernal dos sacrilégios...
Se puderas, Senhora, nesse instante Tomar-lhe a Cruz que os Ombros lhe crucia,E levando-a, seguir agonizante Pela santa montanha da agonia...
Com que sorriso excelso no semblante,Por entre sombras de melancolia,Das nuvens sob o pálio suavizante,A tua Alma de mãe não seguiria!
Oh Porta celestial do Paraíso,Ante a esperança dos teus olhos venho Mover-te à compaixão de que preciso.
Possa eu, Poeta da morte, Alma de assombros,Um dia carregar o santo Lenho Sobre o esqueleto dos meus frágeis ombros!
Magnificat anima mea Dominum...
"Bendita sois entre as mulheres!" Puras Irradiações de salmos encantados De glória a ti, Senhora, nas alturas,Por séculos de séculos sagrados.
Vejo, no entanto, as tuas Amarguras...Senhora, que há de ser dos desgraçados,Se tu, a mais feliz das criaturas,Tens os olhos em lágrimas banhados?
Feliz, bem sei, pois és quem Deus mais ama..."Donde me vem que a Mãe do Verbo eterno Me venha a mim?" Santa Isabel exclama.
Passa-te na Alma a inspiração sublime:E dos teus lábios desce o brando e terno Hino que a glória da tua Alma exprime...
E tu, Senhora, cujo olhar tranqüilo De nuvens brancas a minha Alma veste,Olhar sublime que foi tudo aquilo Que no Céu encontrei de mais celeste:
Tu, ermida sagrada onde me exilo,Longe da fome, e sede, e guerra, e peste,A mostrar-me no Céu, para segui-lo,Todo o luar da esperança que me deste:
Mãe dolorosa! num momento incerto Virás abrir-me os rútilos sacrários De tua Alma que está de Deus tão perto...
Virás, talvez, e então, por certo, as minhas Mãos de sombra debulharão rosários Para a maior de todas as Rainhas...
De mim piedade vós tereis. Bem ledes Que espero o que jamais me será dado...Mas a minha Alma é um templo sem paredes Em que penetra o sol de cada lado.
Com os vossos olhos sinto que vós vedes A desgraça em que vivo encastelado...Oh as sedes siderais! Eternas sedes Suavizadas no mundo constelado.
Mas com que amor cheio de unção e glória Convosco chorarei as vossas Dores Na outra vida e na vida transitória...
E possa eu ver-vos, na hora das Trindades,Tendo aos pés, em etéreos resplendores,Tronos, Dominações e Potestades...
Pois sede teve o vosso Filho na hora Em que Vós, e Elas, a seus Pés vos vistes,Certo coroadas por suprema aurora,Mas todas três tão pálidas, tão tristes...
O seu Olhar, cheio de dor, não chora,Resignado ante as Dores que sentistes,Vós, torre de marfim, santa Senhora,Alma que em pranto astral vos diluístes!
E então secos os Lábios, a Garganta Em fogo, é o instante do cruel martírio:"Sede"! geme-lhe a Voz que se quebranta.
Na ponta de uma lança ergue-se a Esponja:Mais se enlanguesce a vossa cor de lírio,E esse perfil que predizia a monja...
O teu nome, Senhora, é a estrela da alva Que entre alfombras de nuvens irradia:Salmo de amor, canto de alívio, e salva De palmas a saudar a luz do dia...
Pela primeira vez, quando a veste alva A mão do Sacerdote me vestia,Ouvi-o: e na hora batismal, oh! salva A alma que o santo nome repetia...
Foram-se os anos... e sonho que me segueA doçura infinita dos teus olhos Que me dão luzes para que eu não cegue:
Doce clarão de estrela em fins da tarde,Que há de encontrar-me trêmulo, de giolhos,Com remorsos de te adorar tão tarde...
E recebeste-O nos teus braços. Vinha Do alto do Lenho onde estivera exposto Ao ímpio olhar, tão ímpio! da mesquinha Multidão que insultava o santo Rosto...
Sangue o Peito suavíssimo continha,Num resplendor de raios de sol posto...Oh! Vinha do Senhor, excelsa VinhaEm cachos siderais de etéreo mosto!
Sangue que se derrama em ondas, sangue Que para a salvação dos homens, corre Purpureamente brando, e O deixa exangue...
E que correndo como então corria,Por toda a eternidade nos socorre No mistério eternal da Eucaristia...
Só! e ao redor de ti, Senhora, olhaste:Gemia a solidão de extremo a extremo.E o infinito silêncio interrogaste Com a clemência do teu olhar supremo.
Goivos tristes penderam, suaves, da haste,Orvalhados na dor do pranto extremo,Os mesmos olhos com que tu choraste Quando ouviste rugir o ódio blasfemo.
Asas de cisne, além, pairava, incerto,O ermo clarão do luar sobre o deserto,Indefinido e irial, dos olhos teus...
Virgem da Soledade, ancila triste,Ah! quem dissera a mágoa que sentiste:Ser do Céu e viver longe de Deus!
Havias, pois, de vê-Lo, muito em breve,Na suprema hierarquia do infinito,No trono de ouro nacarado em neve,Sublime e santo, como estava escrito.
Mas, agora, choravas. E que leve Véu te enublava o olhar nos astros fito:A lembrança cruel da Parasceve Vinha magoar-te o coração bendito.
Ei-Lo embaixo da Cruz pesada e amara,Que envilecera a tantos, mas que santa,Por Lhe haver dado a morte, se tornara.
Sobe, gemendo, as infernais escarpas:Na eternidade um coro se alevanta
De violinos, de cítaras e de harpas...